O que pode ser valioso para um homem?
Muitas coisas, na verdade. Para muitos, o ouro pode ser descrito como a materialização da maior das glórias, mas seria tolice focar apenas em um metal não tão raro, como um cavalo com viseiras incapaz de enxergar o que não está absolutamente na sua frente. Devemos expandir nosso campo de visão. Essa é a principal filosofia das tribos Arderas.
Embora a chamada Era dos Homens tenha começado oficialmente com a morte de Elcaris, o branco, essa data é um mero tributo à um grande benfeitor da humanidade. Homens ricos e poderosos já existiam centenas de anos antes, e em condições muito mais hostis do que hoje. E muitos deles eram arderanos, como Salim Abdul-Akar.
É até estranho pensar que algo de valor possa sair de Arumahn, o Deserto das Rochas. Mas certa vez Salim viu um Ápir solitário fazendo uma peregrinação no deserto. A hospitalidade é um traço marcante dos arderanos, e ele foi prontamente de encontro ao estrangeiro que, se não estivesse ferido, teria recusado, ou até mesmo se ofendido com tal ato.
Aquele Ápir, que não falava a língua dos homens, viu algo totalmente novo para ele. Naquele dia, ele adicionou uma nova palavra ao rico – e violento – vocabulário Ápir: Amizade. Quando se recuperou, o Ápir recebeu provisões para a sua viagem: comida, água, fumo, e um pouco da pasta que foi usada sobre os seus ferimentos. Como ele não sabia nenhum gesto de gratidão, ele apenas imitou o que aqueles pequenos homens estavam fazendo, colocou a mão esquerda sobre o peito, a direita sobre o rosto, e a estendeu a eles: estou em dívida com você!
Salim não sabia, mas aquele estranho era um príncipe Ápir que havia sido banido de sua facção, e estava indo para o Oeste buscar refúgio. Naquele ano, uma grande guerra aconteceu muito longe daquele deserto, e o príncipe renegado saiu vitorioso. Sua manobra lhe conferiu grande honra, e ele se tornou o maior governante dos Ápires dos seus dias.
Não se passou muito tempo, e o agora Rei Glorioso dos Ápires estava novamente no deserto, mas dessa vez com uma grande caravana. Os homens os temiam, é claro, e embora não fossem o que chamamos de gentis, seu interprete deixava claro a mensagem: buscamos o homem do turbante azul.
As tribos Arderas se identificam por cores, essa é uma tradição que perdura até hoje. Salim, da tribo da Safira, era um chefe de família humilde, com poucas posses. Por isso, muitos homens de turbante azul se apresentaram ao Rei, e ele já estava ficando impaciente. Até que enfim apareceu o hospitaleiro humano que o surpreendeu alguns anos atrás.
O intérprete falou pelo Rei com forte tom de autoridade, alto o suficiente para que toda a assembleia que havia se reunido pudesse ouvir:
“Você me ajudou quando todos me haviam abandonado. A sua contribuição foi o suficiente para que eu recuperasse as forças e travasse minhas batalhas. Fui muito além do meu objetivo, ganhei glória e prestígio, mas nunca esqueci do que você me fez. No meu idioma, a palavra mais próxima para expressar o que eu sentia era ‘Dívida’, mas no seu seria ‘Amizade’”.
Naquele dia, Salim recebeu presentes como nunca na história um homem ganhou. Ele se tornou, de longe, o homem mais rico dos arderanos. Como se não bastasse, essa “amizade” continuaria lhe rendendo frutos ano após ano, através de uma versão primitiva de contrato entre ele o Rei Ápir, que enviaria uma caravana a cada primavera. Assim nasce o primeiro contrato de Amizade.
Salim era um homem gentil e hospitaleiro, mas ele também era um comerciante muito habilidoso, assim como qualquer arderano que vive numa terra que nada produz, mas que é caminho para muitos lugares. E apesar do enorme patrimônio que ele havia acumulado do dia pra noite, isso não o impediu de refletir racionalmente sobre o que tinha acontecido.
O fato é que o mundo é muito grande, e cheio de eventos marcantes. É verdade que uns precisam de comida, uns de madeira, uns de pedras, e uns de ouro, e ele pode comprar e vender essas coisas com 10% de comissão de maneira segura, como seus pais e seus avós sempre fizeram. “Não assuma riscos desnecessários”, eles diziam.
Mas o que acontece quando um grande evento muda tudo? Seus clientes podem de repente não serem mais seus clientes. Isso não é um risco? Mas e se, havendo a grande mudança, ele já estivesse do lado certo da mudança? Esses 10% poderiam ser multiplicados um milhão de vezes, como ele havia acabado de presenciar, se ele oferecesse sua amizade para as pessoas certas.
Felizmente para Salim, arderanos são um povo modesto, que sabem viver com pouco. Isso lhe permitiu fazer um planejamento cuidadoso e criar uma grande e eficaz rede de informação, além do fato de estar numa posição geográfica privilegiada – o centro do mundo conhecido. Com isso, ele passou a ficar sabendo de tudo que acontecia em cada canto do mundo: rebeliões bárbaras do sul, o surgimento dos grandes ferreiros do oeste, a recém descoberta terra do noroeste, os primeiros vulcões do nordeste, e várias outras oportunidades.
Ele contratou fabricantes de navios de todo o litoral, e meio sem querer acabou fundando o porto de Noge em 182 Antes da Era dos Homens. Dali, viajou pelo mundo iniciando uma nova modalidade de negócios: os Contratos de Amizade. Salim visitava povos, analisava suas causas, e decidia se os apoiaria ou não. Em troca, ele se tornava dono de parte dos negócios, ou exigiria o pagamento de uma dívida futura, pré acordada ou a ser decidida na data combinada.
É interessante que nenhum outro povo tenha conseguido replicar com sucesso esse modelo de negócio. É claro que as muitas vezes que os arderanos foram perseguidos e massacrados por causa de suas fortunas escondidas acabaram se tornando avisos históricos contra a ganância descontrolada. Mas mesmo assim, até os dias atuais, os Contratos de Amizade são a principal atividade dos Líderes mais ricos dos arderanos, além das atividades comerciais, é claro.
Uma terra que nada produz. Sério, não tem nada lá. Não se planta nem se colhe. Há pouca água. Não há metais preciosos, nem pastos para criar rebanhos. Não é possível nem mesmo manter um exército lá para se proteger! Mesmo assim, estima-se que a maior concentração de riqueza do mundo atual está sobre aquelas areias – ou enterradas abaixo dela.
E pensar que isso só aconteceu por causa de um problema de tradução. No fim das contas, a Amizade se tornou o Ouro do Deserto.
